Raquel não acreditava em anjos, coelhos da páscoa ou mesmo naquela porcaria de pote de ouro no final de um arco-íris. Raquel acreditava apenas que as pessoas eram ruins e ponto. Nunca tivera melhores amigos ou um namorado que jurou eternidade, na verdade, Raquel acreditava que eterno, só aquela maldita dor nas costas.
Acordava todo dia com a enorme preocupação de limpar suas tão amareladas remelas e pegar o ônibus das seis e meia, aquele mais vazio de presenças. Raquel não sabia se portar diante de ninguém, ou ria ou xingava. Sempre fora torta, diferente, daquelas que não convidam para uma festa e sim para aquela avenida chamada merda. Não se importava, detestava tudo que estava ao seu redor, até mesmo suas enormes curvas arredondadas.
Quando pequena, sonhava com cachorros, potes de sorvete e patins, hoje, esmaga formigas no chão, culpa o doce pela sua gula e tropeça nos próprios pés. Não tem medo de perder o rumo de casa e jamais pediria informação. Encontra-se pelas beiradas, daquelas velhas calçadas que outrora foram abandonadas. A única coisa que Raquel ama, é a neblina, aquele cinza que confunde os olhos, que enganam o coração. Para Raquel, tudo o que não se enxerga direito explica seu desejo de permanecer em silencio. A ausência é sua melhor companhia. Não precisa encontrar explicações se não existem perguntas, se não existe enredo, só existe a certeza de que ali, ninguém saberia de sua existência.
Como um espantalho de plantação, expulsou até o canto dos pássaros, deixar de acreditar nas pessoas, fez dela ilusão. Uma vida que vaga, repleta de nada. Cheia de ar, poluído, diluindo, o pouco que ainda restou.
Raquel não acreditava em anjos, coelhos da páscoa ou em potes de ouro, acreditava que as pessoas eram ruins e ponto. Ela era ruim, ela se maltratou. Não se deu a chance de tentar, de recomeçar. Desistiu. Fez de si, seu vilão, seu assassino da madrugada, seu vicio, sua derrota. Raquel não encontrou saída fora de casa, não encontrou abrigo em seu lar. Fez das cinzas o desenho de sua face, mas não saiu de lá.
Descobriu que desistir das pessoas, era o mesmo que desacreditar de si. Era o mesmo, que ser mentira, ser imaginação. Perder a confiança, é o mesmo que vagar sozinho, sem coragem de pedir ajuda, sem coragem de admitir que se é a salvação.
Raquel está sozinha, no meio daquela avenida, na cor cinza, onde pintou seu coração.