Nunca
me importei em não ter tanta gente por perto. Sempre tive ela ali. Em qualquer
canto dentro de casa, lá fora no quintal. Sempre tinha gosto dela no café da
manhã até o jantar. Sempre tinha aquela presença quente que me confortava.
Tinha também a dor da nossa solidão estampada em cada pedaço de piso no chão.
Em cada respingo na parede.
Nunca
precisei que soubesse do meu mal estar, do meu cansaço, do meu descaso. Ela
sempre me conheceu muito bem. Sabia se meu riso era falso. Sabia se meu choro estava
travado. Ela sempre me machucou muito bem.
Sei
que sempre fomos mais de duas pessoas. Sempre se tem mais alguém. Às vezes só era
bom acreditar que de todas, conseguiria trazê-la de volta. Era bom sentir que
pudia fazer ela encontrar o chão. Do contrario, sempre virei seu tapete.
Pisoteada com sapatos sujos, sentia a dor de ser tão pouco para alguém. Ser
pouco para ela. Ser quase ninguém.
Sabe,
ela me dói muito às vezes. Dor de não a querer por perto. De ser mais uma a
desistir. Dor que dá coragem de fugir. Sumir daqui. Ela sempre soube me mandar
embora. Nos mandar embora. Mas sabe melhor ainda como nos trazer de volta. Mas
só um não dá. Só eu não sou suficiente. Bem verdade, eu nunca fui suficiente.
Sou
um ponto final de um texto tragicômico. O que dá fim a tudo. A qualquer fala
exagerada. A qualquer frase antecipada. As frases dela. A parte em que ela me
tira do roteiro. A parte em que viro algo importante apenas para se dar um fim
no assunto. Sou o fim do assunto. O chega.
Nunca
me importei em não ter tanta gente por perto. Sempre tive ela aqui. Em mim. Mas
a perdi naquele chão borrado de magoas. Ela é apenas lembrança de algo que
nunca tive. De algo que sempre quis.
Eu
só sou memória que ela resolveu esquecer. O que não existe, não dói. Ela
existe, e me destrói.
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