Ontem, a noite foi por deveras inacreditável. Até mesmo os joelhos arranhados compensaram no final. Cada gota daquele suor, espremendo-se por entre os dedos, fez com que sorrisse em gemidos altos. Toda parede sem reboco, em volta, se tornou paraíso oblíquo de teus olhos. Correr dali não foi uma idéia que permaneceu por muito tempo. O medo de gostar demais restringia o olhar. Enxergar aquela cena de fora, seria definitivamente sua maior vontade. Acreditar que acontecia, aconteceu. Dois corpos que se lambiam, sem receio de seus gostos, seus odores ou do tempo.
Quando ambos se encontraram, e cada parte torta se encaixou, seus corpos vibravam cada um em uma frequência, todos com o mesmo pensamento. Horas diferentes. Sensações diferentes E uma única vontade: a de se ter. A espera calma de que ela chegasse ao ápice, a demanda rápida que aumentava em euforia. E no final, apenas corpos deitados por uma superfície nem tanto plana. Dedo com dedo, pernas entre-cruzadas. Silêncio.
A porta se abre, e um deles deixa aquela cena. Deixa tudo ali, naquele chão, que agora está repleto de nada. Até mesmo as manchas somem, o cheiro os deixa. Pedras começam a machucar, a vergonha do próprio corpo surge. Memória de quem fica, é a de tentar apagar.
Sempre quem fica, tenta apagar. A dor de ter acreditado que aquilo um dia poderia ser especial, te torna vulgar. Sexo é sexo. E ela ficou nua em plena sala de estar, que nunca recebera piso, nem moveis, nem nada. Assim como ela, repleta de partes inacabadas, deixada. Desistida de continuar.
Fitará aquele chão, como quem procurava faíscas de um amor que pudera estar ali. Naquele amontoado de areia e pedrinhas, sucumbindo desejo e pele. A prova de que conseguiria, ganharia uma batalha. Seria imortal dentro daquele coração. Seria enfim, qualquer espécie de começo. Qualquer espécie de fé. Qualquer coisa que tivesse uma companhia.
Aos poucos, resolve acordar de si, veste, paulatinamente, seu vestido branco e empoeirado, suas sandálias gastas, quando seu cabelo cai por entre os olhos, e ela sorri tímida de lado, lembrando de como aquele sujeito da noite passada, tinha com os dedos suaves, os colocado atrás de sua orelha, e com um olhar de ternura repetido diversas vezes: -Você é linda! Você é linda!
A porta se abre e ele entre com rosquinhas de chocolate.
Sexo é sexo. Mas nesse caso, também é amor.
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