quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Entre esquinas.


Quanto mais lembro aquelas palavras, mais sinto pena de mim. Cavei meu próprio buraco, fundo na lama podre de teus olhos. Bebi de tua saliva para não morrer de sede, e, no entanto, a morte se deu por teu veneno. Fui sufocando aos poucos, vendo cada parte minha sendo deixada num lar que tínhamos construídos juntos. Um lar que lapidei com as unhas. Hoje, faltam-me até mesmo os dedos, que ficaram em teu corpo, marcando de vermelho teus machucados. Agredindo-te com uma falsa presença. Lembranças que nenhum de nós desejou ter. Vida, que morreu ali, naquela estrada, que nos separa. Distantes, perdemos a causa. Não lembro o motivo pelo qual amei, lembro apenas pelo o qual deixei. Deixou-me. E isso nem é o que mais dói. Dor mesmo é fingir não lembrar. Dor mesmo foi ter deixado pra lá. Deixado-ti.
Ao me perder, reluto se realmente ainda quero reinventar meus pedaços. Às vezes penso que ser de mentira, torna tudo mais fácil. Não precisar contar o que de fato aconteceu. Não ter que estampar sorrisos falsos só para agradar a noite de alguém que nem quero tão bem. Que não quero perto. Afastar todos é bem mais difícil do que parece, ter que admitir que companhia é melhor, fode o pouco do juízo que me restava. Minha cabeça pede para explodir, para esculpir braços fortes envolta de mim. Sei que não sou boa pessoa, tenho andando torta além da conta, julgando aparências velhas da escola, trocando apelidos por falta de jeito, acho que mereço todos aqueles risos que esgotaram minha paciência. A simpatia em cada dia, o tédio consumindo toda uma vida. Na verdade, eu queria apenas fugir, ser culpada da minha causa. Ser vida fora de mim.
Como soa linda a tragédia do nosso fim, como envolvidos em nada, tornou tudo tão mais intenso, como ser oblíquo fez de nos encaixes perfeitos. Ser tão ausente tomou nosso porta retrato. Nossa dignidade, some, esconde-se repleto de amargura. Armaduras que cravei, tranquei com cadeados tudo aquilo que desejei de ti, longe, bem longe do alcance de minhas mãos, longe, bem longe, do alcance dos meus pensamentos. Perto o suficiente para não dizer de novo sim.
Fique longe, bem longe de mim.

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