Quanto mais lembro aquelas
palavras, mais sinto pena de mim. Cavei meu próprio buraco, fundo na lama podre
de teus olhos. Bebi de tua saliva para não morrer de sede, e, no entanto, a
morte se deu por teu veneno. Fui sufocando aos poucos, vendo cada parte minha
sendo deixada num lar que tínhamos construídos juntos. Um lar que lapidei com
as unhas. Hoje, faltam-me até mesmo os dedos, que ficaram em teu corpo,
marcando de vermelho teus machucados. Agredindo-te com uma falsa presença.
Lembranças que nenhum de nós desejou ter. Vida, que morreu ali, naquela
estrada, que nos separa. Distantes, perdemos a causa. Não lembro o motivo pelo
qual amei, lembro apenas pelo o qual deixei. Deixou-me. E isso nem é o que mais
dói. Dor mesmo é fingir não lembrar. Dor mesmo foi ter deixado pra lá.
Deixado-ti.
Ao me perder, reluto se realmente
ainda quero reinventar meus pedaços. Às vezes penso que ser de mentira, torna
tudo mais fácil. Não precisar contar o que de fato aconteceu. Não ter que
estampar sorrisos falsos só para agradar a noite de alguém que nem quero tão
bem. Que não quero perto. Afastar todos é bem mais difícil do que parece, ter
que admitir que companhia é melhor, fode o pouco do juízo que me restava. Minha
cabeça pede para explodir, para esculpir braços fortes envolta de mim. Sei que
não sou boa pessoa, tenho andando torta além da conta, julgando aparências
velhas da escola, trocando apelidos por falta de jeito, acho que mereço todos
aqueles risos que esgotaram minha paciência. A simpatia em cada dia, o tédio
consumindo toda uma vida. Na verdade, eu queria apenas fugir, ser culpada da
minha causa. Ser vida fora de mim.
Como soa linda a tragédia do
nosso fim, como envolvidos em nada, tornou tudo tão mais intenso, como ser
oblíquo fez de nos encaixes perfeitos. Ser tão ausente tomou nosso porta
retrato. Nossa dignidade, some, esconde-se repleto de amargura. Armaduras que
cravei, tranquei com cadeados tudo aquilo que desejei de ti, longe, bem longe
do alcance de minhas mãos, longe, bem longe, do alcance dos meus pensamentos. Perto
o suficiente para não dizer de novo sim.
Fique longe, bem longe de mim.
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